MARCAS EMOCIONAIS NOS DOCENTES EM TEMPOS DE PANDEMIA: CONTRIBUIÇÕES DA EDUCAÇÃO EMOCIONAL

Janaina Maria de Souza Oliveira Melo Tatiana Rodrigues Cavalcante dos Santos Aurino Lima Ferreira


TCC 2 - Janaina Melo e Tatiana Rodrigues
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Resumo A pandemia da Covid-19 alterou o cotidiano da vida de docentes no Brasil e no mundo. Adaptações foram rapidamente impostas diante do novo normal com impactos na saúde física e emocional. Objetivamos investigar as marcas emocionais deixadas nos docentes em decorrência da pandemia. Realizamos uma pesquisa qualitativa exploratória de cunho fenomenológico a partir da investigação da atividade “As Marcas Emocionais no Corpo” desenvolvida com 37 docentes no curso de Alfabetização Emocional do Portal Educação Emocional. Levantamos 7 macrocategorias, nomeadas com as partes do corpo que concentravam as marcas das emoções. Os resultados indicam a ansiedade como a marca emocional mais citada, seguida do medo, angústia, estresse e dor. As transformações e mudanças bruscas de adaptação ao “novo normal” e os desafios decorrentes do acesso ao mundo tecnológico deixam marcas emocionais no corpo dos docentes que precisam de cuidado. A Educação Emocional quando auxilia na promoção do autoconhecimento e cuidado de si pode contribuir na melhora do manejo das emoções. Palavras-chave: Marcas Emocionais; Pandemia; Docentes; Educação Emocional. 1 PARA INÍCIO DE CONVERSA Com a chegada da pandemia reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o coronavírus, a sociedade de consumo, “acelerada” e movida pelo imediatismo, se viu tendo que lidar com outras prioridades como a busca pela vida, pela saúde e proteção individual, pois em que pese o negacionismo, destacado nos trabalhos de (CAPONI, 2020; CRIPPA 2020), o vírus impactou a vida de todos, em especial criou um desafio para o campo educacional com o fechamento das escolas e a abertura do ensino virtual. O novo coronavírus foi divulgado em 31 de dezembro de 2019, com o primeiro foco identificado em Wuhan, na China, onde deu início a propagação de pessoa a pessoa. Devido ao seu teor de periculosidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarava emergência 1 Concluinte do Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. janamso@gmail.com. 2 Concluinte do Curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. tatiana24rodrigues90@gmail.com. 3 Professor do Departamento de Psicologia e Orientação Educacional do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, tendo sido orientador do primeiro autor deste artigo. E-mail: aurinolima@gmail.com. 1

de importância Internacional, contudo não se previa o imenso impacto que teria no campo educacional. A Covid-19, causada pelo SARS-Cov-2, se alastrou de forma devastadora e global, causando muitas mortes em todo mundo, por isso a OMS decretou estado de pandemia. Ao mesmo tempo em que a doença se alastrava, deu-se início à busca de informações e de soluções para amenizar o risco de contaminação causada pelo vírus. A transmissão ocorre, de acordo com o Ministério da Saúde, através do aperto de mãos contaminadas, gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro e por objetos ou superfícies contaminadas. E como o coronavírus se propagou rapidamente, a medida adotada foi o distanciamento social. Porém, essa medida trouxe diversos impactos sociais, entre eles o cancelamento das atividades presenciais nas escolas em todo o mundo. De acordo com pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas4, “No Brasil, 81,9% dos alunos da Educação Básica deixaram de frequentar as instituições de ensino. São cerca de 39 milhões de pessoas. No mundo, esse total soma 64,5% dos estudantes, o que, em números absolutos, representa mais de 1,2 bilhão de pessoas, segundo dados da UNESCO.” Esse contexto provocado pela Pandemia, fez com que gestores, através da Portaria no 345/2020 do Ministério da Educação, colocassem em prática a substituição das aulas presenciais por aulas que utilizassem as ferramentas tecnológicas, capazes de dar continuidade ao ano letivo. Dessa forma, se fez necessário que docentes inovassem o processo de ensino à distância. Nesse cenário surgiram diversos desafios, pois além de ter que estimular os estudantes a essa nova forma de “ensino”, teriam que dominar, de forma célere, o manuseio dessas tecnologias, o que se tornou muito angustiante. Os docentes precisaram passar por um momento de adaptação forçada, e muitos não estavam preparados para a inclusão dessas ferramentas em suas atividades, o que levou a um desgaste emocional imensurável. Muitas vezes, por não conseguir os objetivos propostos, esses profissionais acabam adoecendo e o que era para ser um processo eficaz que amenizaria os impactos, termina sendo algo até mesmo torturante para muitos. Na reportagem publicada no dia 30 de agosto de 2020, intitulada: “Sobrecarregados pelo ensino remoto, professores podem adoecer em massa, alerta psicóloga”, escrita por Cecília 4 FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS. Educação escolar em tempos de pandemia. Disponível em: https://www.fcc.org.br/fcc/educacao-pesquisa/educacao-escolar-em-tempos-de-pandemia-informe-n-1. Acesso dia: 13/10/2020 às 20:24. 2

Emiliana5, os docentes relataram que tiveram que correr atrás de se aperfeiçoar na área de informática, assistindo tutoriais pelo YouTube, aprendendo sobre iluminação e outras ferramentas para melhorar a qualidade do ensino remoto. O tempo gasto na frente do computador, aprendendo, ensinando e com as reuniões escolares era superior a carga horária oficial de trabalho, causando exaustão, tensão e estresse. Além de toda mudança na parte profissional, os docentes tiveram que conviver com o isolamento que para muitos trouxe a solidão, o medo de perder o emprego, o medo de pegar a doença, dentre tantas outras situações que surgiram com a pandemia, e isso se refletiu diretamente na saúde emocional. Neste contexto, diversas emoções foram desencadeadas. Acontecimentos inusitados e novas rotinas foram introduzidas às pressas, tais como uso de máscaras, álcool em gel e reuniões à distância passaram a ser a alternativa viável. O pensar, sentir e agir agora precisam se relacionar de maneira mais intensa, no intuito de preservar a existência. Os docentes se viram diante de muitos questionamentos e deste novo desafio que demanda se aprofundar em suas habilidades emocionais para poder lidar com essa nova realidade que em nada é “novo normal”, pois não há parâmetros de comparação e tudo segue como se estivessem em estado de guerra. De acordo com a reportagem de Cecília Emiliana apresentada acima, há o indicativo de que os docentes tiveram que se ajustar ao novo “normal” das aulas remotas, o que acarretou em uma jornada de trabalho mais ampla, e uma corrida contra o tempo para adquirir novas técnicas necessárias para essa modalidade. Segundo a repórter, “[...] a sobrecarga tem se refletido na saúde emocional dos docentes de Minas e do Brasil”. Com dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Península6, que contou com a participação de 2400 docentes de todo o Brasil, mais da metade demonstraram estar muito ou totalmente preocupados com sua saúde, totalizando 53% dos entrevistados. Os motivos para esse número elevado são vários: sobrecarga de trabalho, cobrança das instituições de ensino, assim como dos pais dos alunos, aprimoramento dos conhecimentos sobre as tecnologias necessárias para as aulas online e, ainda, conciliação com os trabalhos domésticos, já que também estão em quarentena. 5 EMILIANA, Cecília. Sobrecarregados pelo ensino remoto, professores podem adoecer em massa, alerta psicóloga. Site: Estado de Minas Gerais. Publicada em: 30/07/2020, atualizada em: 03/082020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/07/30/interna_gerais,1171561/sobrecarregados-pelo-ensino- remoto-professores-podem-adoecer-em-massa.shtml. Acesso dia: 10/08/2020 às 21:44. 6 Instituto Península. Pesquisa: Neste momento tão atípico e incerto, como estão os nossos mais de 2,2 milhões de professores? Publicada em: 29/05/2020. Disponível em: https://institutopeninsula.org.br/como-estao-os- professores-neste-momento-de-crise/. Acesso dia: 12/09/2020 às 17:50. 3

Nesse sentido, investigar acerca do impacto da pandemia na vida dos docentes é fundamental para criarmos estratégias de Educação Emocional que favoreçam o bem-estar social e pessoal desses indivíduos, oportunizando o cultivo do manejo das emoções através da alfabetização emocional, que consiste em perceber, identificar e dar nome às emoções, do autoconhecimento, do autocuidado e da tomada de decisões responsáveis que possibilitem processos de desenvolvimento pessoal e escolar. Entramos no século XXI com inúmeras promessas de transformações, principalmente no que se refere ao desenvolvimento tecnológico, mas também com muitas frustrações e desencantamentos no que diz respeito à superação de conflitos decorrentes da falta do manejo adequado das emoções. Por isso, destacamos a importância da educação emocional para que os docentes, diante de tantas incertezas causadas pela pandemia, tenham a busca de equilíbrio e enfrentamento das adversidades. Assumimos neste trabalho que a educação emocional é aquela que contempla a formação integral do ser humano, na qual o educar interliga intimamente as ações, os pensamentos e as emoções com vistas à humanização do sujeito (RHÖR, 2010). Dessa forma, pensar em educação emocional segundo Steiner e Perry (2001) é ampliar os relacionamentos, criar possibilidades de afeto entre os sujeitos, tornar o trabalho cooperativo possível e facilitar o sentido de comunidade. Apesar das pesquisas acadêmicas sobre educação emocional terem se ampliado na última década (SALOVEY; SLUYTER, 1999; GARDNER, 1995, 1999, 2005; GOLEMAN, 1999, 2001, 2006; CASASSUS, 2007, 2009; ARANTES, 2015, 2019), trabalhos envolvendo a pandemia e os impactos emocionais nos docentes ainda são muito escassos e, por esta razão, este trabalho contribuiu com reflexões tanto para o docente enquanto ser humano, quanto para a sua prática no processo educativo, a fim de proporcionar ferramentas que amenizassem esses impactos e, dessa forma, apontar as contribuições da educação emocional no processo de tomada de decisões responsáveis frente às adversidades vividas neste momento crítico da humanidade. Assim, indagar a experiência dos impactos da pandemia na docência é entender a importância desse acontecimento no desenvolvimento dos docentes com relação ao manejo de suas emoções nos processos de ensino em tempos remotos. Promover o desenvolvimento integral do ser humano é desafiador, por isso é necessário então que a educação amplie suas ações a fim de tornar esse desenvolvimento integral e preparar o ser humano para a vida. 4

Goleman (1995, p. 20) vai dizer que “[...] todas as emoções são, em essência, impulsos para lidar com a vida que a evolução nos infundiu”, ou seja, as emoções ao nosso entender seriam sinais de que algo nos acontece e que precisamos ativar formas criativas de enfrentamento das adversidades que nos aflige. Desse modo, investigar os impactos emocionais na vida do docente em tempos de pandemia é entender como esse processo afetou o seu trabalho e como a Educação Emocional seria importante no processo de ensino. Assim, algumas questões de pesquisa foram levantadas: como a pandemia afetou o trabalho e o corpo do docente? Quais emoções foram mais mobilizadas durante o período de distanciamento social? Que elementos norteadores nos ajudariam a pensar sobre a importância da Educação Emocional no manejo das emoções desses docentes? 2 EDUCAÇÃO EMOCIONAL: DELIMITANDO UM CAMPO O ato de educar está repleto de emoções que devem ser conhecidas e trabalhadas, pois quando convivemos com pessoas diferentes de nós, estamos sujeitos a entrar em conflito tanto na esfera macro quanto micro. Logo, de acordo com Casassus (2009), o processo de formação como um sistema de relações organizado e que se baseia na aprendizagem está por conta das emoções. A Educação Emocional traz uma nova compreensão do ser humano, pois o que é pessoal se constrói no social, nas relações intra e interpessoais, a partir do desenvolvimento de conhecimentos e habilidades da dimensão emocional. Para compreender melhor a Educação Emocional é necessário aprender sobre as emoções, e que todo ser humano é único e dotado de diversas possibilidades. Somos seres perpassados de emoções que aparecem de acordo com ações externas que influenciam o nosso interior e vice-versa, fazendo com que estejamos continuamente marcados pelo sentir. Segundo Casassus (2009, p. 87): [...] as emoções são energias vitais. Trata-se de um tipo de energia que une os acontecimentos externos aos acontecimentos internos. Por essa qualidade de ligar o externo ao interno, as emoções estão no centro da experiência humana interna e social. São um modo de relação do interno com o externo, de internalização e externalização, unidos por Neste sentido, esse trabalho objetivou investigar como os docentes perceberam as marcas emocionais deixadas em seus corpos durante o período de distanciamento social da pandemia covid-19, no intuito de apresentar as possíveis contribuições da educação emocional para o manejo e superação das adversidades. 5

uma energia que é uma disposição para agir. Como acabamos de dizer, as emoções são uma energia vital. De acordo com a emoção que sentimos, são desencadeadas ações que interferem de forma positiva ou negativa na nossa vida como um todo (fisicamente, biologicamente e mentalmente). Nesse sentido, é certo dizer que precisamos encontrar um equilíbrio das emoções, para que as ações inerentes a ela não causem danos nas outras áreas de nossas vidas, assim como, não causem transtornos na vida de outras pessoas. A Educação Emocional entra nesse campo com a finalidade de fazer cada um entender sobre si e assim poder trabalhar onde precisa ser melhorado. Portanto, a Educação Emocional tem o propósito de fazer com que os docentes conheçam suas próprias emoções e aprendam a lidar com elas. A partir do momento que a pessoa se conhece fica mais fácil lidar com as ações que as emoções refletem, assim como também facilita a compreensão do outro e proporciona a empatia. Com isso, é aperfeiçoado tanto o seu lado pessoal quanto o social. 2.1 Educação Emocional Integral O estudo que Arantes (2019) traz sobre a Educação Emocional Integral (EEI), diz que a parte “integral” trata da formação humana. Quando tratamos com o ser humano, precisamos trabalhar sua completude e sua complexidade. Entender que são singulares, assim como afirma Casassus (2009, p. 44), Cada pessoa é única, porque é configurada por uma combinação única e complexa. Essa configuração resulta da maneira particular com que cada um enfrenta, estimula e incorpora as experiências que lhe acontecem nas diversas situações em que se encontra ao longo da vida. [...] Nossa autenticidade tem a ver com a fidelidade que temos em relação a nossa originalidade. Educar pessoas de uma forma integral, mesmo que em tempos remotos, requer competências que dialoguem com todo universo que permeia o ser humano. Também é necessário conhecer o aluno para entender quais são suas necessidades e ter um “ambiente escolar” adequado, favorecendo um espaço onde os discentes possam aprender sobre si, compreender o outro e, assim, facilitar o processo de aprendizagem integral. Os objetivos centrais da Educação Emocional Integral, de acordo com Arantes (2019, p. 133) são: “[...] promover a alfabetização emocional, favorecer o autoconhecimento, estimular o autocuidado e facilitar decisões responsáveis.” 6

Alfabetização emocional é a capacidade de reconhecer e avaliar os seus sentimentos, assim como o do outro. Torna-se necessário porque faz com que o sujeito seja capaz de lidar com suas emoções no seu processo de desenvolvimento. O autoconhecimento é a capacidade de realizar um mapeamento pessoal, ou seja, praticar a interiorização para um conhecimento mais interno. O corpo e a mente precisam estar em conexão para que esse processo ocorra de forma harmoniosa, promovendo a capacidade de um conhecimento melhor sobre si. Aqui, podemos transcorrer sobre as habilidades relacionais, pois a partir do momento em que nos conhecemos, ampliamos nossas possibilidades de conhecermos o outro, assim estabelecemos uma relação mais saudável das nossas emoções, pois a habilidade relacional nos permite um olhar multifocal, um pensar e principalmente um agir diferenciado. O autocuidado pode ser entendido como um conjunto de atitudes, gestos e comportamentos que adotamos com o intuito de nos cuidar, buscando atender as necessidades do nosso corpo e mente, demonstrando que somos responsáveis por nossa vida e nosso bem estar. Por isso, exige de nós um senso de responsabilidade e uma atitude gentil com a própria existência. Consequentemente, tem a autogestão que vem a ser definida como devemos agir diante das questões emocionais, e que pode ser caracterizada como intrapessoal (como lidamos com nossas emoções) e a interpessoal (como colaboramos com o outro na compreensão de suas emoções). A consciência social significa abranger os indivíduos com os quais nos relacionamos, e desenvolver junto a eles uma valorização dos direitos humanos, a fim de proporcionar interações que sejam harmoniosas para ambas as partes. Em outras palavras, é perceber os sentimentos do outro, sem que o mesmo necessariamente precise falar. Por isso, a empatia e a escuta sensível precisam ser praticadas para que possamos, assim, contribuir para a construção de relacionamentos saudáveis. A tomada de decisão responsável é uma habilidade que envolve tanto a razão quanto a emoção, pois é a partir dela que fazemos escolhas construtivas sobre o comportamento pessoal e as interações sociais. Portanto, a tomada de decisão consiste em o indivíduo controlar suas emoções em prol de uma justa decisão, favorecendo a si mesmo e ao grupo. 3 CAMINHOS TRAÇADOS Essa pesquisa seguiu uma abordagem qualitativa e exploratória, pois levou em consideração uma problemática, na qual buscamos a compreensão e reflexão do manejo das 7

emoções dos docentes no período da pandemia da Covid-19, com a finalidade de “[...] explorar e entender o significado que os indivíduos ou os grupos atribuem a um problema social ou humano” (CRESWELL, 2010, p. 26). Diante dessa perspectiva, o sujeito não pode ser visto à parte da sua realidade, pois tendo em vista esse tipo de abordagem, o objeto é apontado como um elemento da experiência humana a ser observada em sua totalidade. É importante destacar a fenomenologia como metodologia que retoma a importância dos fenômenos, os quais devem ser estudados em si mesmos. Tudo o que podemos saber sobre nós mesmos e o mundo está resumido a esses objetos que o ser experimenta em seu findar. Desta forma, a situamos dentro da perspectiva qualitativa, porque tem como objetivo encontrar soluções para um problema. Pensar fenomenologicamente é distanciar-se das referências científico-naturais, é ir às coisas mesmas, afastar-se dos critérios realistas e idealistas, entender que existe uma dinâmica em que o fluxo da vida acontece de forma cotidiana. É justamente o interesse pela investigação das vivências, o que faz sentido para o sujeito, o que é mais significativo. Destacamos a opção pelo uso desse método por conta, principalmente, do fenômeno de investigação: as marcas emocionais deixadas no corpo dos docentes em tempos de pandemia, ou seja, a vida humana que não pode ser um fenômeno observado apenas de forma externa. Partindo dos trabalhos de Bicudo (2000), quatro momentos foram voltados para o enfoque fenomenológico. O 1° momento, contato com o fenômeno investigado nos possibilitou as indagações e afetações. O 2° momento, a descrição do fenômeno, onde a partir das experiências emocionais levantadas nas figuras humanas foram realizadas as devidas descrições. O 3° momento, o levantamento e a análise descritiva dos dados que foram extraídos depois de uma releitura das figuras humanas. Esse momento mostrou que a realidade é cocriada pelo pesquisador no contato com o fenômeno investigado. O 4° momento, a discussão dos resultados que foram equiparados com as teorias, com a finalidade de expansão do diálogo. 3.1 Participantes e lócus da pesquisa A pesquisa foi realizada com 37 participantes, profissionais da área de educação, tanto da rede pública quanto da privada que realizaram o curso online intitulado Alfabetização Emocional para Educadores. Este curso teve início em 3 de setembro de 2020, com carga horária de 30 horas. O perfil das pessoas participantes foi descrito no quadro a seguir. 8

Quadro 1: Perfil dos Participantes NOME FICTÍCIO IDADE GÊNERO FORMAÇÃO Amanda Maria Byanca Bezerra Catarina Cristina Cristina do Carmo Cristiane Souza 46 Feminino 48 Feminino 42 Feminino 40 Feminino 24 Feminino Pedagogia Pedagogia Pedagogia Pedagogia Pedagogia Danielly Caldas 37 Feminino Lic. em Ciências Biológicas Débora Barros 31 Feminino Pedagogia Eduarda Silva 41 Feminino Letras Ednalva Costa 56 Feminino Pedagogia Ester Fonseca 41 Feminino Letras Fernanda Maia 47 Feminino Pedagogia Francisco Souza 22 Masculino Estudante de Pedagogia – UFPE Giselle Belarmino 56 Feminino Professora Ingrid Melo 33 Feminino Pedagogia e Lic. em História João Vieira 31 Masculino Filosofia José Ferreira 33 Masculino Mestre em Educação Joana Pessoa 28 Feminino Pedagogia Julia Oliveira 40 Feminino Pedagogia Ketlyn Duarte 24 Feminino Pedagogia Kelly Reis 23 Feminino Pedagogia Lara Araújo 48 Feminino Pedagogia Luana dos Santos 55 Feminino Pedagogia Lucas Oliveira 42 Masculino Lic. em História Luiza Melo 43 Feminino Pedagogia Maria Eduarda 47 Feminino Pedagogia Marina Barros 56 Feminino Pedagogia Madalena Fontes 57 Feminino Psicopedagogia Paloma Soares 23 Feminino Pedagogia Priscila Silva 36 Feminino Letras Rebeca Batista 40 Feminino Pedagogia Regina Souza 30 Feminino Estudante de Pedagogia Roberta Azevedo 36 Feminino Letras Rodrigo Filho 29 Masculino Lic. em Matemática Samanta Gomes 44 Feminino Pedagogia Sara Rozendo 22 Feminino Letras Talita Souza 22 Masculino Estudante de Pedagogia Túlio Oliveira 42 Masculino Letras 9

Quanto ao lócus, o curso de Alfabetização Emocional para Educadores foi oferecido pelo Portal Educação Emocional7 e tinha como objetivos centrais: levar os educadores a perceber as influências das emoções no processo de ensino e aprendizagem, bem como entender como as emoções interferem nos relacionamentos entre professores e estudantes, nos relacionamentos entre família e escola, nos pensamentos e atitudes, na linguagem não verbal, no reconhecer e nomear os sentimentos, e o que são as emoções a partir de uma perspectiva integral. O curso foi construído a partir de pesquisas acadêmicas, transmitidas de forma clara e objetiva, interações ao vivo, tendo material de apoio, outros educadores participantes, uma plataforma oferecida como espaço para interação e atividade, metodologia própria e exercícios vivenciais. Dois momentos síncronos foram ofertados. No primeiro momento, tivemos uma abertura oficial (aula inaugural) trazendo a importância da alfabetização emocional e de como nós, educadores, precisamos ser cientes e conscientes da nossa importância na educação e de como podemos enfrentar esse “novo normal” utilizando o nosso protagonismo docente e formas de resistência que produzam bem-estar. Foi-nos apresentado um vídeo onde o curso separou- se em duas unidades: Unidade 1 – Intrapessoal: destacou como a alfabetização emocional pode ajudar na construção do ensino-aprendizagem, na relação professor e aluno e no manejo das emoções. Unidade 2 – Interpessoal: trouxe a educação emocional como um processo coletivo e contextual. Falou-nos sobre os nossos direitos de emoções básicas (tristeza, alegria, medo, raiva). Tivemos acesso ao ambiente virtual bem explicativo onde todas as atividades ficaram a nossa disposição para que, dependendo da nossa disponibilidade de tempo, pudéssemos realizar da melhor maneira possível as 30 horas propostas. 3.2 Instrumentos A partir das atividades oferecidas pelo curso, escolhemos analisar uma atividade específica chamada "As marcas emocionais no corpo”, cujo objetivo foi compreender, a partir da escrita no desenho dos participantes, as marcas (sintomas) emocionais deixadas no corpo durante a pandemia. Oferecemos um desenho com uma silhueta de uma figura humana completa no qual os participantes poderiam escrever como seu corpo foi afetado durante a pandemia. 7 http://www.educacaoemocional.com.br/ 10

A atividade foi explicada em aula online e a cada participante solicitamos enviar os desenhos para o e-mail da coordenação do curso. Esses desenhos foram selecionados pelas pesquisadoras para realização das análises com a devida autorização dos participantes. 3.3 Processos de construção dos dados Esta pesquisa seguiu as orientações de Bicudo (2000), e foi dividida em quatro momentos interarticulares. Utilizamos o termo “momento” no intuito de romper com a lógica cartesiana linear muitas vezes presente nos processos de construção dos dados, aqui tivemos um movimento espiralado de recuos e avanços. O primeiro momento nasceu da necessidade de ampliar o conhecimento do território no qual foi realizada a investigação. Para isso, ingressamos no curso Alfabetização Emocional para entendermos melhor a dinâmica e os seus principais objetivos. A partir de uma das atividades intituladas “Marcas emocionais” partiu o nosso interesse de aprofundamento, pois ela poderia oferecer-nos pistas de como os docentes foram afetados durante a pandemia. No segundo momento, nos concentramos em analisar a atividade que os professores fizeram “As Marcas Emocionais no Corpo”, quando puderam colocar suas percepções sobre o que estava ocorrendo em cada parte do seu corpo devido aos efeitos da pandemia. O terceiro momento, tratou da construção dos dados obtidos com as atividades sobre a qual planilhamos todas as informações levantadas dos 37 professores. Depois de preenchermos todo o conteúdo, separamos os pontos convergentes e divergentes dos participantes. O quarto momento consistiu na análise e interpretação dos dados de forma a nos auxiliar a responder o objetivo proposto para compor os resultados. 3.4 Processos de análise de dados Na primeira fase, seguindo as orientações de Bicudo (2000), organizamos o material de acordo com os objetivos e categorias. Selecionamos todos os desenhos para analisarmos as marcas emocionais no corpo dos docentes a partir de palavras ou frases colocadas pelos mesmos. Separamos cada parte do corpo e fomos montando os dados de acordo com os respectivos posicionamentos. É importante destacar que as palavras não foram direcionadas, ou seja, partiram do próprio sentimento e pensamento dos participantes. Realizamos a leitura das palavras e expressões dos 37 participantes, no intuito de estabelecer as convergências e divergências que mais se destacaram e que se tornaram unidades de significado. Estas unidades de significado foram agrupadas em 7 macrocategorias abertas de 11

acordo com as indicações dos participantes: 1) Cabeça; 2) Pescoço; 3) Tórax; 4) Coluna; 5) Membros superiores; 6) Abdômen; 7) Quadril e membros inferiores. Antes de pontuar os resultados, ressaltamos que, ao longo da atividade, os docentes ficaram livres para colocar suas percepções nos desenhos do corpo, sem quantidade estabelecida de palavras. Por isso, o mesmo desenho, por exemplo na cabeça, continha várias informações e, assim, analisadas de acordo com seus significados. 4 RESULTADOS 4.1 Cabeça: entre ansiedade, cansaço e sonolência A cabeça congregou alguns pontos convergentes com as marcas emocionais que mais afetaram a vida dos educadores em tempos de pandemia e encontra-se presente na tabela a seguir. Tabela 1: Marcas emocionais na cabeça Marcas emocionais Ansiedade Cansaço e sonolência Insônia Estresse Pensamento acelerado Dor de cabeça Respiração Tensão Angústia Descontrole alimentar Medo Preocupação Tristeza Número de % participantes 9 24 7 19 5 13 4 10 4 10 3 8 3 8 3 8 2 5 2 5 25 25 25 Fonte: As autoras De acordo com Goleman (1995), as emoções seriam sinais de algo que acontece, ou seja, elas seriam impulsos para lidar com a vida. Por isso, diante das emoções destacadas, foram desencadeadas reações positivas e outras negativas que mostraram uma interferência multidimensional nos participantes, havendo afetação nas dimensões física, biológica, emocional e mental. Ansiedade e cansaço são as marcas emocionais que mais se destacaram entre os participantes. De acordo com Dourado et al. (2018) a ansiedade é um estado de medo que paralisa o sujeito, levando-o muitas vezes a perda do controle das emoções, sentimentos e comportamentos. No entanto, é uma resposta biológica do organismo em situações sobre as 12

quais se perde o controle absoluto e, por isso, existe um temor em não conseguir um desempenho satisfatório. A ansiedade encontra-se na maioria das vezes associada à tensão muscular, preocupação relacionado ao perigo futuro e comportamentos de alerta ou esquiva. Se diferencia, portanto, do transtorno de ansiedade, que desencadeia pensamentos catastróficos e estes desenvolvem sintomas físicos como sudorese, problemas digestivos, dores físicas e musculares, além dos fatores emocionais. Esse transtorno nos confirmou que corpo e mente precisam estar conectados de forma saudável para que o ser possa se conhecer melhor e se relacionar com outras pessoas. Desta maneira, destacamos o autoconhecimento como a capacidade de mapeamento pessoal, ou seja, a prática da interiorização para um melhor conhecimento de si poderia minimizar os impactos deste processo na vida dos educadores. O cansaço e a sonolência, relatado por 19% dos participantes, surgiram pelas mudanças da rotina de trabalho dos docentes nessa pandemia. Por mais que a carga horária no papel seja a mesma, o que acontece de fato é o aumento desse tempo, já que eles, além de dar as aulas remotas, precisam gravar materiais e preparar outros tipos de materiais; aqueles que não tinham tanta familiaridade com a informática tiveram que estudar sobre, além das reuniões, cobranças dos pais e da direção da escola. E isso sem contar com a rotina doméstica, pois precisam dar conta dos serviços de suas casas. Nesse contexto, o corpo pede socorro. Para Corbin (2003), o corpo se manifesta para a pessoa através de sensações e que, por sua vez, apresenta significados. Para ele, a linguagem corporal e as sensações são muito importantes porque mesmo que o indivíduo não fale a linguagem dos sintomas, estas são vistas através das marcas e marcos corporais, os quais podemos destacar o cansaço e a sonolência. Em terceiro lugar apareceu a insônia nos relatos dos docentes. Ela está ligada ao cansaço e sonolência, pois à medida que você não dorme adequadamente, seu corpo não recupera as energias necessárias para dar conta das atribuições do dia. A insônia normalmente provém das preocupações, ansiedades, sedentarismo, entre outros fatores que fazem com que o sono fique desregulado. Reações inclusive destacadas por alguns dos docentes, como, por exemplo, Byanca Bezerra que relatou junto com insônia, ansiedade e angústia. O estresse e o pensamento acelerado apareceram em 10% (cada um) dos desenhos. Na reportagem de Cecília Emiliana, descrita no início desse trabalho, fica evidente que a “grande carga de responsabilidade, alto nível de cobranças, além da rotina familiar que, com o home office, acabou de atropelar o trabalho, completam a esfera estressante dos educadores”. 13

Conforme a Biblioteca virtual8 em saúde do site do Ministério da Saúde, o estresse é a "reação natural do organismo que ocorre quando vivenciamos situações de perigo ou ameaça. Esse mecanismo nos coloca em estado de alerta ou alarme, provocando alterações físicas e emocionais”. Nesse sentido, o ambiente provocado pela pandemia foi propício para o surgimento do estresse e demais reações emocionais na vida de todos e, particularmente, na dos docentes. O pensamento acelerado, que também foi destacado na atividade, é uma reação de todas as informações absorvidas em tão pouco tempo para se habituar ao “novo normal” e a nova rotina de trabalho. A participante Amanda Maria destaca “minha cabeça não pára um minuto. Vivo em constante alerta”. O estresse emerge como um estado de tensão fisiológica e mantém uma influência direta com as demandas do ambiente. De acordo com Lipp (2002), o estresse está associado a sentimentos de hostilidade, tais como ansiedade, depressão, tensão e que surgem desde as características individuais, relacionamento social no ambiente de trabalho, como em condições gerais onde o trabalho é executado. A dor de cabeça, a respiração e a tensão vieram em seguida com 8%. A tensão apareceu como resposta aos estímulos externos. A tensão, de acordo com o site Psicanálise Clínica9, ocorre devido a uma reação fisiológica que “fica mais evidente quando fatores emocionais estão envolvidos [...]. Por exemplo, estresse, ansiedade ou outros problemas ligados à postura”. A respiração surgiu como um sintoma decorrente dos outros fatores emocionais, como um fator de escape, como Paloma Soares relata no seu desenho, "às vezes tenho que respirar fundo”, assim como reflexo de momentos difíceis com a respiração mais curta, especificado pela participante Marina Barros. A dor de cabeça assomou também devido a todos os fatores já especificados, pois o corpo já esgotado responde de diversas formas e uma dessas é a dor. Pudemos ver isso na resposta de Débora Barros que colocou “dor de cabeça devido à ansiedade”, assim como Paloma Soares que colocou “dor de cabeça (quando estou ansiosa)”. Os pontos com menor porcentagem, porém não menos importantes, foram: angústia, descontrole alimentar, medo, preocupação e tristeza. 8 MINISTÉRIO DA SAÚDE. Biblioteca virtual. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/dicas-em- saude/2068-estresse. Acesso dia 01/11/2020, às 12:29. 9 PSICANÁLISE CLÍNICA. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/tensao-muscular/. Acesso dia 11/10/2020, às 13:02. 14

A angústia, de acordo com Pollo e Chiabi (2013, p. 138), “[...] significa primeiramente estreiteza, limite, redução, restrição, etc., significantes que expressam com clareza as sensações que acometem um sujeito angustiado: aperto, sufocação, vertigem”. O Descontrole alimentar, com 5%, apareceu enquanto sintoma físico da ansiedade, pois na fala de Ana Paula “quando estou em crise de ansiedade, é como se eu descontasse na comida e ela ‘disse’ meu depósito de sentimentos, senti que engordei muito nesta pandemia”, percebemos a perda do controle desse comportamento. Segundo Wallon (1995), o medo, como todas as outras emoções, origina-se em reações elementares, mas nasce das sensações, ou seja, quando ocorre a quebra do equilíbrio. Estas reações aparecem sempre que houver falhas em dominar as atitudes, como mudanças de ambiente, fatos inesperados e situações confusas. A Preocupação também está associada ao medo já que percebemos uma quebra do equilíbrio devido à mudança e, com isso, o fato de muitos não conseguirem administrar essa forma de vida que o distanciamento provocou. Quando nos referimos à tristeza, como em todo sentimento, ela está ligada a um objeto particular, por exemplo a perda de algo ou alguém querido, e comporta um movimento com início, meio e fim, passando por intervalos livres ou vividos física ou psiquicamente. Ao falar sobre o sofrimento do ser sadio, Tatossian (1979/2006) aponta que existe uma identificação entre o Eu e o sentimento experimentado por ele, ou seja, ao mesmo tempo em que o Eu é sua tristeza, ele também é o objeto desta, sendo ambos idênticos. É notório que diversas classificações verbais foram usadas para a descrição de um estado emocional desagradável, acompanhado inclusive de sintomas fisiológicos. Por isso, quando nos referimos ao sofrimento da mente dos docentes, estamos nos direcionando a um conjunto de manifestações físicas e psíquicas como ansiedade, angústia, medo, preocupação, estresse, e que numa expressão mais contemporânea e recente podemos nomear de “mal-estar docente”. (TOSTES et al., 2018, p. 90). Vale lembrar que pontos divergentes também surgiram, pois alguns participantes, em suas palavras, frases ou expressões, destacaram sentimentos positivos e felizes. Os pontos foram: confiança, gratidão, autoconfiança, felicidade, alegria, felicidade, força, paixão, aprendizagem, equilíbrio, diálogo, responsabilidades e empatia. A participante Regina Souza escolheu escrever um pequeno texto que diz: “Sinto que não devo observar tanto os outros. Devo observar mais as minhas condutas. Sinto a necessidade de ouvir mais e falar menos”. Já Julia Oliveira escreveu o seguinte: “Nas aulas presenciais sentimos a recíproca dos alunos, através das nossas atividades, sentimos o contato do toque, do poder abraçar. E com a pandemia 15

posso vê-los ‘apenas’ pelo computador nas aulas assíncronas, onde sinto falta do toque, do abraço, da boa tarde”. E Lara Araújo pintou a parte de cima da cabeça de vermelho. Logo, percebemos a individualidade nas emoções de cada ser, pois cada um tem sua singularidade e mesmo que estejam vivendo o mesmo contexto, suas reações serão diferentes. Casassus (2009, p. 93) nos confirma quando diz, As emoções se relacionam com os acontecimentos vividos, não como relação de causa e efeito, em que um mesmo evento provoca sempre e em todos um mesmo estado emocional, mas de tal forma que uma emoção vivida, relacionada com um acontecimento determinado, também por processos mentais internos próprios do sistema completo que estimula e interpreta o estímulo. Para Diener (1995), os afetos podem ser vividos como positivos e negativos, onde o negativo se caracteriza por emoções desagradáveis, com comportamentos pessimistas, ansiosos, aborrecidos, e o positivo que se destaca por ser um estado de alerta e atividade, mas com sentimento de prazer, como observado em algumas palavras e frases escritas por alguns participantes. Lyubomirsky et al. (2005) destacam que a felicidade se mostra mais baseada na continuação com que as pessoas vivenciam as emoções positivas, do que na intensidade com a qual essas emoções são vivenciadas. Por isso, pessoas com afetos positivos tendem a ser mais realizadas e felizes em diversos âmbitos de suas vidas. 4.2 Pescoço: entre tensão e “nó na garganta” O pescoço também reuniu pontos convergentes no que diz respeito às marcas emocionais citadas pelos docentes, como podemos observar na tabela abaixo: Tabela 2: Marcas emocionais no pescoço Marcas emocionais Tensão Nó na garganta/engasgo Número de % participantes 3 8 2 5 Fonte: As autoras Apesar de poucos participantes nomearem essa parte do corpo, pudemos identificar que os termos citados também foram associados a um clima emocional fragilizado durante a pandemia. Existe uma inter-relação entre sentimentos, pensamentos e ações que vão interferir tanto no equilíbrio quanto no desequilíbrio do indivíduo. Por isso, Arantes (2019) vai destacar a dimensão objetiva (corpo, comportamento) dando ênfase às expressões das emoções através do 16

corpo físico, como podemos destacar nos termos tensão, dor e até mesmo na expressão “nó na garganta” destacada pela participante Fernanda e “dor na cervical” pela participante Rebeca. Nessa perspectiva, o autocuidado é fundamental porque exige de nós mesmos uma maior responsabilidade e uma postura gentil com nossa existência. É importante entender e principalmente atender às necessidades do nosso corpo e mente. Os pontos em comum que se destacaram foram o termo tensão com 3 participantes e o “nó na garganta”/engasgo com 2 participantes. A tensão, como já destacada anteriormente, surge como resposta física a um momento de estresse, em que o corpo reage desconfortavelmente aos estímulos externos. É destacada na fala de Regina Souza “incômodo leve no pescoço como se estivesse algo travado” e que também aparece na fala de Ester Fonseca quando traz a palavra “pressão” associando ao incômodo que sente nessa região do corpo. O “nó na garganta” também se classifica como resposta fisiológica e está vinculado a emoções fortes causadas pelo estresse e ansiedade citados anteriormente e que, consistem no fechamento da passagem de ar pela garganta provocando uma sensação de mal-estar. Os pontos divergentes foram o desgaste informado pela participante Ketlyn Duarte, e respiração um pouco ofegante citado por Madalena Fontes. No ponto 4.1, outras três pessoas pontuaram a alteração da respiração como um fator que surgiu durante a pandemia. Já o desgaste aparece para somar os sintomas que os docentes pontuaram nos desenhos. Todos esses sentimentos que surgiram durante a pandemia, determinam muito de como estamos cuidando da nossa saúde emocional. De acordo com Arantes (2020, p. 55), Este é um ponto importante que a pandemia do novo coronavírus tornou mais evidente: como o corpo funciona e o que pensamos informam bastante sobre nós; mas o modo como levamos a vida, emocionalmente falando, tem muito a acrescentar. Somos também o jeito e as consequências de como lidamos com nossas emoções. E os nossos sentimentos ajudam a explicar por que agimos de determinadas formas, especialmente em momentos de pressão e tensão como o de isolamento social obrigatório. Portanto, o que observamos de negativo, o corpo recebe a informação e responde de diversas formas, de acordo com a forma como estamos lidando com nossas emoções. E o desgaste e a respiração ofegante são exemplos disso. 4. 3 Tórax-Coração: entre ansiedade, amor e saudade 17

Na tabela abaixo, podemos observar o retorno da ansiedade, informado por 21% dos docentes, dor com 10% , cansaço com 8% e angústia, preocupação, respiração irregular, tensão, tristeza com 5% cada. Tabela 3: Marcas emocionais no tórax-coração Marcas emocionais Ansiedade Coração acelerado Dor Amor Cansaço Falta de ar Peso nos ombros Angústia Choro Preocupação Respiração irregular Saudades Tensão Tristeza Número de % participantes 8 21 5 13 410 38 3 8 3 8 3 8 2 5 2 5 2 5 2 5 2 5 2 5 2 5 Fonte: As autoras De acordo com esses dados, o Ameriacan Psychiatric Association (2014) destaca que a ansiedade possui sintomas tanto físicos quanto psicológicos. Logo, os sintomas físicos se apresentam com: respiração ofegante e falta de ar, palpitações e dores no peito, fala acelerada, sensação de tremor e vontade de roer as unhas, agitação de pernas e braços, tensão muscular, tontura e sensação de desmaio, enjoo e vômitos, irritabilidade, enxaquecas, boca seca e hipersensibilidade de paladar, insônia. Já os sintomas psicológicos são: preocupação excessiva, dificuldade de concentração, nervosismo, medo constante, sensação de que se pode perder o controle ou que algo ruim vai acontecer, desequilíbrio dos pensamentos entre outros. A partir dessas informações, percebemos que a maior parte das marcas emocionais destacadas pelos participantes se misturam entre aspectos físicos e psicológicos. Por isso, conhecer esses sentimentos vai levá-los a identificar os sinais que o corpo mostra quando algo está irregular. Observamos essas misturas na escrita de Débora Barros: “medo de não conseguir realizar o trabalho de ensino remoto” e que complementa com “respiração ofegante diante do novo”. A palavra amor destacada em 8% dos participantes, como dito anteriormente, surgiu enquanto sentimento positivo porque nem sempre um mesmo evento provoca em todos os 18

mesmos estados emocionais. Assim, expressões como “amor ao próximo”, “viver”, “Deus” e “Minha mãe”, colocadas por Túlio Oliveira, mostraram a singularidade das emoções. Saudades com 5%, é passível de ser compreendida em Jesus (2015, p. 106) quando nos diz que “[...] se a saudade é experimentada de diferentes maneiras, seu significado se relaciona sempre ao mesmo substrato universal: a perda ou a ausência do ser amado, de um amigo, de uma terra distante ou de um momento vivido outrora”. E o mesmo autor (2015, p. 64), numa perspectiva fenomenológica, ressalta ainda que “[...] para tentar melhor descrever a saudade, é preciso experienciá-la, pois, como todo sentimento que se manifesta no ser, ela permanece profundamente subjetiva, intransmissível em si. [...] Cada experiência permanece privativa de um sujeito”. Por isso, destacamos “saudade da minha sala de aula, das tardes da escola e amigas de trabalho” de Julia Oliveira e “saudades dos alunos” de Gisselle Berlamino como experiências singulares e subjetivas. 4. 4 Coluna: o que sustenta dói Dos 37 docentes, seis deles colocaram dor na coluna como, por exemplo, Francisco Souza que escreveu “bastante dor na coluna” e Ednalva Costa que relatou “dor nas costas”. Tabela 4: Marcas emocionais na coluna Marcas emocionais Número de % participantes Dor 616 Fonte: as autoras Muitas pessoas não sabem, mas as dores na coluna podem ter um fator emocional. De acordo com Carlos Bueno (2020, p. 49), “[...] a dor é individual, subjetiva e influenciada por experiências anteriores, sensações (olfato, audição, visão, etc.) e emoções.” Por isso, é necessário ter um olhar mais atento para as emoções, porque elas influenciam nas dores físicas. A dor aparece como um mecanismo de defesa do nosso organismo. Ainda segundo Bueno (2020, p. 51), A dor tem como característica ser multifatorial; o estilo de vida e as emoções influenciam diretamente tanto o comportamento frente à dor como a capacidade de recuperação. O estresse emocional, muitas vezes caracterizado por sintomas de ansiedade e depressão, é reconhecido como um fator de risco significativo para o surgimento e à amplificação dos sintomas de dor. Frequentemente as dores aparecem durante eventos cotidianos de maior estresse, como aumento de pressão no emprego, doenças na família ou dificuldades financeiras. 19

Diante disso, podemos dizer que no atual momento dos professores, que se depararam com a quarentena, e com isso uma nova rotina de trabalho, os fatores emocionais incidem diretamente nas dores físicas. Bueno (2020, p. 49) afirma que, “[...] as emoções podem influenciar a experiência do indivíduo que sofre a dor, por isso pessoas deprimidas e felizes vão ter reações diferentes a ela.” A participante Byanca Bezerra, além de dor, destacou a tensão, palavra que foi citada por outros docentes nas partes do corpo anteriormente. Então, podemos salientar que a tensão está presente na vida dos docentes e os motivos já foram explicados nos pontos anteriores. 4.5 Membros Superiores: entre a dor e ansiedade A tabela abaixo congrega as marcas emocionais destacadas pelos participantes nos membros superiores. Tabela 5: Membros superiores Marcas emocionais Número de % participantes Dor 513 Ansiedade 2 5 Mãos suadas / tremor 2 5 Fonte: As autoras A dor nas mãos, destacada por 13% dos participantes, está associada aos movimentos repetitivos, causando fadiga muscular. Logo, percebemos sintomas físicos desencadeando desconforto. Porém, como citado no ponto 4.4., a dor não está desligada do emocional, pois de acordo com Bueno (2020, p. 50), “Nosso corpo é um sistema único em que a parte física e a emocional não estão separadas uma da outra [...]”. Já as mãos suadas e o tremor entre os 5% dos participantes são sintomas bem característicos do estresse e ansiedade, como já mencionado. A ansiedade aparece novamente, mostrando que os docentes estão passando por momentos complicados. Como relatamos no ponto 4.1 (Cabeça), a ansiedade acontece quando perdemos o controle das nossas emoções, é uma resposta do organismo aos acontecimentos externos. Como exemplo da participante Joana Pessoa que escreveu em seu desenho: “ansiedade, incerteza/medo, mudança na rotina, dúvida”, demonstrando que a chegada da pandemia acarretou situações adversas, e que os docentes tiveram que se adaptar, de forma rápida, causando essa enxurrada de sentimentos. E nem todos sabem lidar com isso, e assim, o corpo reclama e a mente pede socorro. 20

Os pontos divergentes surgiram através de frases nas quais os decentes demonstravam o que estavam sentindo. Amanda Maria escreveu: “Essas mãos já fizeram coisas que eu me envergonho, mas hoje sua força me orgulha”. Já Ednalva Costa pontuou: “Desejos de realizar objetivos, animada para trabalhar”. Francisco disse que tem “perda fácil de concentração, bastante hiperativo, unhas roídas”. Ingrid Melo colocou: "Não faço exercício físico. Leitura todos os dias. Música para relaxar no horário da noite, antes de dormir”. Marina Barros relatou: “O corpo fala, nós é que não o escutamos. Mas a vontade de seguir adiante é mais forte. O corpo está cansado”. Regina Souza escreveu: “Sinto que devo “segurar” os momentos construtivos e “soltar” os destrutivos”. E Roberta Azevedo que expressou: “Sou uma pessoa fácil de demonstrar sentimentos. Tenho um jeito bastante transparente”. Outras palavras que surgiram foram: criação, amor, assustada, furiosa, rigidez, empatia, indecisão, tristeza, amizade, justiça. E uma ação interessante da participante Lara Araújo, que pintou de vermelho a parte superior do braço. Observando no geral as divergências, verificamos citações de pontos positivos e negativos. Isso recai no que Arantes (2020, p.57) diz que cada pessoa lida com as situações de acordo com suas vivências, a autora afirma que “O modo como o ser humano enxerga a si mesmo está relacionado à forma como ele compreende o mundo no qual está inserido e como tem entendido sua própria história ao longo do tempo nesse contexto.” 4.6 Abdômen: entre alimentação irregular e estresse A alimentação irregular, que apareceu em 5% dos participantes, como dito anteriormente, está associada à falta de manejo no enfrentamento da ansiedade e surge como sintoma físico, como podemos destacar na fala de Eduarda Silva quando cita “sobrepeso” e Rodrigo que traz “aumento de peso pela má alimentação e nervosismo”. Com relação ao estresse, que também foi anteriormente destacado, nos 5% dos participantes, percebemos enquanto start para doenças como depressão e ansiedade, pois devido à alta pressão, ao excesso de informações, ao excesso de trabalho e à falta de descanso, o nosso sistema operacional funciona acima do seu limite e, com isso, lança em nosso organismo hormônios que, em grandes quantidades, mudam nosso comportamento. Daí o termo “irritabilidade” citado pela participante Ketlyn Duarte. Tabela 6: Marcas emocionais no abdômen Marcas emocionais Número de % participantes 21

Alimentação irregular / 2 5 sobrepeso Estresse / irritação 2 5 Fonte: As autoras Outras informações foram pontuadas de forma individual, que são: insegurança, desânimo, cansaço, fadiga, dores, exaustão, frustração, frio na barriga e alegria. Já alguns participantes optaram por colocar frases, como Débora Barros que escreveu: “Passei a sentir calma quando fui vencendo as etapas”; Já Maria Eduarda relatou “Muitas dificuldades diante de todos os acontecimentos, mas feliz pela superação e por descobrir que posso, basta encarar e jamais desistir.” E Roberta Azevedo: “Na pandemia muitas incertezas e medo surgiram... Mas com o passar dos dias e meses as coisas estão se reorganizando. E outra forma de expressar foi a de Lara Araújo que pintou essa parte do corpo de vermelho. De acordo com Tatiana Brasil (2020, p. 41), Medo, tristeza, raiva e alegria são emoções que, entre outras, fazem parte do sujeito. Reconhecer cada uma delas no momento em que surgem, sua intensidade e como agir diante delas contribui/favorece as relações intra e interpessoais. Precisamos entender que cada sujeito tem uma forma única de reagir às situações, não deixando de ser resilientes caso não apresentemos uma reação positiva de outrora (precisamos considerar o momento, as condições de vida e políticas). 4.7 Quadril e Membros Inferiores: entre dor e cansaço Duas participantes escreveram na área do quadril. Uma foi Ester Fonseca, que colocou “Respeito aos princípios”, referindo-se ao respeito que ela provavelmente não está tendo com as limitações do seu corpo. Essa escrita, nos remete ao estresse e à ansiedade que podem gerar desconforto tanto físico quanto emocional. Já Ketlyn Duarte, ao contrário, informou “Alívio (na área sexual)”, pois o ato sexual estaria associado a uma válvula de escape para lidar melhor com a tensão. A tabela a seguir reúne as marcas emocionais apontadas pelos participantes nos membros inferiores do desenho. Tabela 7: Marcas emocionais nos membros inferiores Marcas emocionais Número de % participantes Dor 719 Cansaço / fadiga Peso Inchaço 6 16 5 13 3 8 22

Angústia 2 5 Fonte: As autoras A dor citada por 19% dos participantes apareceu enquanto mecanismo de defesa, pois o corpo dá sinais de que não está reagindo bem à sobrecarga de trabalho, como observamos nas falas de Madalena Fontes “dores cansadas nas pernas” e na de Danielly Caldas que traz “fascite plantar (muita dor)”. O cansaço/fadiga em 16% reforça o excesso de trabalho e informações que já citamos anteriormente, em que a ansiedade e o estresse são fatores bastante relevantes para o desencadeamento desse sintoma físico. Por isso, na escrita de José Ferreira que relatou “cansado, frustrado, desmotivado”, observamos fatores físicos e psicológicos interligados. O peso com 13% e o inchaço com 8% são características fisiológicas dessa nova rotina de trabalho exaustiva que leva o docente a passar muitas horas em pé ou muitas horas sentados, mas que na escrita de Amanda Maria “meus pés sentem o peso da minha idade e da minha negligência comigo mesma” pudemos perceber uma característica psicológica tal como a frustração. Por fim, a angústia apareceu com 5%, e já foi citada pelos participantes em outras partes do corpo. Destacamos a participante Luana dos Santos que relatou: “Angústia, nervosismo. Empatia, compaixão, calma.” No seu conjunto, podemos destacar que as marcas mais apontadas pelos educadores foram a ansiedade, o medo, a angústia, o estresse e a dor, indicando que nesse momento de alerta em que a pandemia deixou muitos em estado de pânico, fragilizados emocionalmente e fisicamente, tentando encontrar respostas para lidar com suas emoções, sentimentos, pensamentos e até comportamentos que saíram do controle, essas marcas se tornaram fatores importantes para esse “adoecimento” (MORETTI; GUEDES-NETA; BATISTA, 2020; LIMA et al., 2020; RIBEIRO et al. 2020). Os achados deste estudo convergem com outras pesquisas realizadas em condições de pandemia que mostraram o aumento do nível de ansiedade durante a quarentena (BARARI et al., 2020; LIMA et al., 2020; WANG et al., 2020). A educação emocional poderia ajudar no processo de superação das adversidades vividas durante a pandemia, pois favorece processos de humanização no sentido de promover o cultivo do manejo das emoções através da alfabetização emocional, que é saber reconhecer e nomear as emoções; do autoconhecimento que é perceber a conexão entre o agir, pensar e sentir; autocuidado, que é gerir os efeitos da emoção sobre si e sobre o outro e tomada de decisões 23

responsáveis, que é fazer escolhas construtivas, mas respeitando os limites individuais e coletivos. Dessa forma, acreditamos que quando um ser humano é capaz de aprender a lidar com suas emoções, sabendo nomeá-las, se percebendo enquanto ser emocional diante das adversidades e, principalmente, capaz de aprender a fazer escolhas que sejam construtivas para o seu bem-estar e do outro, ele está entendendo a Educação Emocional Integral no seu sentido mais espiritual, pois não deixa de ser um processo contínuo e inesgotável. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da situação de pandemia COVID-19 provocada pelo vírus SARS-CoV-2, a mudança de rotina, o distanciamento e as consequências políticas, econômicas e sociais aumentaram o desconforto emocional em toda comunidade educacional. Dar conta dos desafios tem sido uma tarefa muito difícil para os educadores que se viram sobrecarregados diante de tantas novidades tecnológicas e manejo de suas emoções. O corpo é o lugar no qual as emoções irão falar de forma mais expressiva e direta. Se percebemos um mascaramento de sentimentos em certas falas, o corpo diferentemente, vai sinalizar se determinada situação está além dos limites, ou seja, não podemos mascarar pois “o corpo fala”. Logo, todo esse impacto que o ensino remoto trouxe e toda essa necessidade de aprendizagens muito aceleradas têm desencadeado marcas no educador. Este trabalho evidenciou o quanto a pandemia afetou de forma direta ou indireta a vida dos docentes e, mais ainda, como emoções e sentimentos “negativos” ficaram presentes durante esse período. É preciso destacar que apesar de tantos sentimentos não saudáveis, conseguimos notar que mesmo numa situação de extrema pressão, precariedade nos instrumentos de trabalho, de estar se expondo e expondo o seu ambiente, a busca de possibilidades que eles vão chamar de alegria surge nessa perspectiva de não desistência, de uma relação humana, formativa. Se eles perdem essa dimensão da esperança, da alegria, vão sobrecarregar o seu corpo nesse processo. Os principais resultados do estudo revelaram a necessidade dos docentes em compreender, saber lidar e nomear suas emoções, pois percebemos que diante das circunstâncias profissionais, emocionais e pessoais a que estão submetidos, é mais que necessário um conhecimento profundo de si, assegurando, assim, uma melhor qualidade de vida. 24

Nesse momento, os docentes aprofundarem-se em suas habilidades emocionais para poder lidar com essa nova realidade, ao nosso entender, tem sido o mais significativo dos desafios, pois percebemos o quanto é importante a busca do equilíbrio para o enfrentamento das adversidades. Vale lembrar que, até o fechamento do nosso trabalho, esse período não cessou, o que nos leva a pensar que outras possíveis emoções e sentimentos podem surgir diante desse novo tão incerto. A Educação Emocional surge como facilitadora no processo de amenização dos impactos emocionais causados pela pandemia, visto que nossos resultados mostraram o quanto fragilizados emocionalmente estão os docentes, e o quanto precisam nomear e entender suas emoções a fim de conseguirem a busca do equilíbrio. Entender sobre si e poder trabalhar onde precisa ser corrigido para uma melhor relação consigo e com o outro é propósito da Educação Emocional. REFERÊNCIAS AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Tradução Maria Inês Correa Nascimento et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. ARANTES, M. M. Educação Emocional Integral: análise de uma proposta formativa continuada de estudantes e professores em uma escola pública de Pernambuco. 2019. 271 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. ARANTES, M. M. Pandemia e Pandemônio: Reflexões sobre educação emocional em tempo de coronavírus. Recife: Editora UFPE, 2020. BARARI, S. et al. Evaluating COVID-19 Public Health Messaging in Italy: Self-Reported Compliance and Growing Mental Health Concerns. IEEE Transactions on Visualization and Computer Graphics, p. 46-68, 2020. BICUDO, M. A. V. Fenomenologia: confrontos e avanços. São Paulo: Cortez, 2000. CASASSUS, J. Fundamentos da educação emocional. 1. ed. Brasília: UNESCO; Liber Livro, 2009. CORBIN, J. M. The body in hand illness. Qual. Health Res., v.13, n.2, p.256-67, 2003. 25 BRASIL, T. L. Resiliência Integral e Educação Emocional: cocriando em tempos de pandemia. In: ARANTES, M. M. Pandemia e Pandemônio: Reflexões sobre educação emocional em tempo de coronavírus. Recife: Editora UFPE, 2020. BUENO, C. M. G. As dolorosas emoções. In: ARANTES, M. M. Pandemia e Pandemônio: Reflexões sobre educação emocional em tempo de coronavírus. Recife: Editora UFPE, 2020.

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